quinta-feira, 6 de maio de 2010

[Música] Que história é essa de ‘Hope Rock’?

Registro feito no House Show no Rio de Janeiro, por Eduardo Mano.

Que história é essa de ‘Hope Rock’? ou: Palavrantiga 2 anos depois

Quem acompanha o Diversitá há mais tempo sabe que eu sempre menciono uma das minhas bandas preferidas: Palavrantiga. Em 2008 eles lançaram seu primeiro EP, entitulado Volume 1 e fiquei empolgado o suficiente para ir atrás de uma entrevista. Segundo Marcos Almeida, vocalista, foi uma das primeiras que eles realizaram. Tudo gravado via Skype, com ele e Lucas “Fizin”, o baterista. Rendeu um podcast que está no ar até hoje e novos papos muito bons.

De lá pra cá eu me “aproximei” bem mais dos caras (tudo via internet) e no final de semana passado eu hospedei o sr. Marcos Almeida em minha casa. Ele veio a João Pessoa por conta própria, para tocar aqui gratuitamente. Coisa de gente doida, eu sei. Acontece que a vinda dele pra cá também tinha o objetivo de trazer a banda posteriormente, coisa que já tem sido articulada desde 2008.

Marcos tem andado por aí com uma história de Hope Rock, que ele mesmo define como uma música cuja base é a esperança. Ouvindo o som e lendo certas entrevistas você talvez seja bem direto: “hope rock que nada! Isso aí é música de crente!”. Pois é. Acontece que não é qualquer música.

Cristãos? Sim. Boring? Not.

Os quatro integrantes da banda são cristãos, sim – nada ortodoxos, mas bastante convictos da fé que tem. A música que fazem não é “mais ou menos” permeada pelo que acreditam. Ela é totalmente baseada no que acreditam. O problema central é que o rótulo de música “cristã” hoje em dia não é sinônimo de uma ideologia, mas sim de qualidade musical inferior. Ouvindo o som da banda você poderá confirmar exatamente o oposto.

Eles tocam muito bem, são músicos exemplares, com influências que passam por U2, The Killers, Coldplay, Los Hermanos, Chico Buarque e chegam nos famigerados cristãos que também fazem música boa, como João Alexandre, Jorge Camargo, etc. A minha grata surpresa foi saber que em seus ensaios mais recentes, eles elaboraram arranjos para músicas de Nelson Cavaquinho, Roberto Carlos e Los Hermanos. Canções que se adequam à sua proposta, de um rock menos sem fé na vida que o de sempre, porém, sem menosprezar as dores que todos tem. Ouvir “Vem me Socorrer” é a prova disso. A canção tem um tom contemporâneo, bastante inspirado no clima Little Joy, mas não fala de pequenas alegrias. Marcos grita sobre sua dor, mas não perde a esperança.


Marcos Almeida e seu hope rock ao vivo em João Pessoa.

Conhecê-lo pessoalmente foi poder ouvir algo que deve ser bastante considerado: a música popular brasileira sempre teve pitadas religiosas em seu lirismo. A diferença, obviamente, seria o proselitismo – as intenções de conquista para uma determinada fé. Não se ouvirá as músicas de Vinícius de Moraes, Caetano Veloso, Gilberto Gil e dos contemporâneos Otto, Céu, Ana Cañas, sem perceber notadamente referências às religiões afro como Candomblé e Umbanda. É impossível não reparar nas músicas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola e nos contemporâneos do Los Hermanos e Marisa Monte, uma presença de uma cosmovisão que passa pelo Deus cristão, na perspectiva católica.

Umbanda music?

A pergunta que Marcos levantou no final de semana foi: você por acaso encontra Caetano e Céu na prateleira “Umbanda Music”? Claro que não, pois além destes artistas não buscarem um tipo de proselitismo a respeito do que creem, o mercado sabe que eles não representam isso (mesmo que a crença esteja evidente em várias de suas músicas). O grande problema talvez seja o fato de que a maioria dos cristãos evangélicos que fazem música, tem intenções proselitistas com sua arte, fazendo dela objeto de segundas intenções. Agregam-se em prateleiras que hoje mais afastam e segregam do que atraem e promovem boa arte.

O que o Palavrantiga espera não é algum tipo de revolução, mas ao menos uma evolução a respeito de um paradigma que deve ser descontruído. Música feita por cristãos não é necessariamente proselitista. O som do Palavrantiga pode sim ser bastante direto sobre sua fé, de forma salmódica e até chegar a ter tons eclesiásticos, congregacionais, mas possui uma visão de humanidade, que a maior parte não tem. A ideia é pensar o hoje, a condição humana atual e perguntar: do jeito que está, dá pra continuar? Veja o vídeo da música “Rookmaaker”:

Velho Irlandês, Crombie, Alforria, Tanlan são ótimos exemplos de bandas que tem seguido intencionalmente ou não este tipo de conceito. Não é estar em cima do muro em relação à fé, mas sim acreditar que arte é vivência e não necessariamente um objeto a ser usado para conquistar pessoas.

O som do Palavrantiga tem ido além das “barreiras” cristãs e novos parceiros tem acreditado nisso. Henrique Portugal, tecladista do Skank, não só ouviu e gostou do som, como convidou os caras para gravarem uma música no programa de bandas independentes que ele tem. Depois, o site FRENTE, que ele organiza, entrevistou Marcos e lá ele explica com mais detalhes toda essa história de Hope Rock.

Ao fim, deixo um dos registros mais interessantes para exemplificar essa jornada: os cariocas do Crombie junto aos rapazes do Palavrantiga tocando “O Vencedor” do Los Hermanos. Nem só de triunfalismo vive o cristão.

por Ricardo Oliveira Saturday May 1, 2010
Via Diversitá